Aos trinta anos estava solteira de novo, tinha acabado de se separar quando voltou a trabalhar no turno da noite Lia é uma ótima médica legista que adora seu trabalho no necrotério da cidade, ela prefere trabalhar a noite quando não tem ninguém para incomodar. Pegava seus instrumentos, o rádio e ia para a sala de necropsia. Sempre tinha um corpo novo para cortar e descobrir seus segredos.
Quando surgia um desfigurado ela se lembrava dos jogos de montar quebra-cabeça e se divertia montando o defunto.
Referia-se ao trabalho como uma artesã que seguia a tradição grega. Estudava muito à fundo sua profissão, e quando ficou sabendo que na época de Hipócrates já tinha gente se divertindo como ela agora podia se divertir.
A sala estava meio fria e o inox limpo pela assepsia parecia brilhar, lhe deu uma tremenda fome e antes de começar pediu um cachorro quente com duas salsichas, tiras de bacon e batata palha. Quanto mais ela comia mais magra parecia, seu metabolismo era muito rápido.
O entregador levou a encomenda até o portão que dava acesso ao necrotério e ficou buzinando, Lia saiu correndo e gritando com o garoto, você quer acordar todo mundo! O rapaz deu de ombros e entregou o pacote, pegando o dinheiro. E saiu acelerando. Deve ter pensando que maluca, ali só tem gente morta. Ela se divertiu com a cara do rapaz e o que ele podia ter ficado pensando a respeito dela. Sentou em cima da mesa e comeu seu lanche, derrubando mostarda em seu avental azul.
Tinham chegado dois corpos novos de um acidente na auto-estrada, um casal jovem que tinha se perdido numa curva. O rapaz de 18 anos estava todo arrebentado, tinha saído do carro na colisão, a garota de 16 anos estava usando o cinto de segurança e tinha só uma perfuração no estomago por causa de uma barra de ferro que tinha entrado pelo vidro da frente. Os corpos estavam em cima de outras duas mesas, tapados por lençóis brancos, no local que tinha os ferimentos estava sujo de sangue. E Lia tinha ficado olhando para as duas mesas enquanto comia.
Ela limpou o canto da boca passando a manga da blusa, e desceu da mesa. Para pegar um cigarro em sua bolsa. Ficou um bom tempo fumando e pensando na conta do telefone que estava atrasada. Sua mãe iria ficar preocupada, pensou.
Estava tão na cara causa mortis daquele casal que ela teve que rir, a vantagem que ela via naquele serviço é que os clientes nunca reclamavam. O salário razoável e trabalhava em turnos com outro colega, assim no verão conseguia dar umas escapadas até a praia.
Lia pegou seus instrumentos e foi até a garota, começou pela ectoscopia, realizando o exame externo minuciosamente, no inicio ela não abre as cavidades naturais, vai tomando nota em seu bloco das características da vitima, sexo, estatura, idade aparente, cor dos olhos, e dos cabelos. Contínua anotando tudo que vê como fraturas, cicatrizes, hematomas e outras lesões cutâneas...
Mas o que ela mais gosta é do exame macroscópico, e esta garota estava bem conservada para realizar um exame interno de primeira, ela pega as ferramentas, começa por uma incisão longitudinal que vai da incisura jugular à sínfise púbica desviando a região mediana na altura do umbigo. Retira o externo fazendo um corte ao nível das cartilagens costais, desta forma ela fica observando os órgãos tóraco-abdominais, analisando procurando alguma alteração na posição dos mesmos. Ela continua por mais duas horas, quando para pra um cafezinho.
Após terminar o café ela volta ao trabalho finalizando a necropsia da garota e a costura de forma que não se perceba quando vestida o que teve que ser feito.
Depois vem a parte chata da historia, preencher o relatório da declaração de óbito com a causa mortis e colocar a garota na gaveta. Lia tinha um gosto especial por mulheres jovens. Ela se sentia tão à vontade enquanto trabalhava, ficava falando de seus problemas e sonhos, chegava a ficar intima da defunta. Inventava nomes e as maquiava, mas Alice era diferente. Alice foi o nome que ela deu para o corpo. Ela tinha trazido seu namorado junto, Lia não se sentia a vontade com Rafael, ali na outra mesa. Teve uma idéia, abriu uma de suas gavetas na mesa ao lado da cafeteira e escolheu aleatoriamente um relatório de alguns meses atrás. Ótimo!Exclamou, tinha achado um relatório que servia bem para Rafael e o jogou carimbado dentro da gaveta. Começou a cantar acompanhando a musica que estava tocando, estava feliz. Só ela e Alice agora podiam falar de coisas mais serias. Ela começou a sentir um calor pelo corpo. Vendo a garota dormindo tão sossegada. Não resistiu e a beijou, encostou seus lábios quentes nos lábios frios da garota, Alice tinha lábios carnudos e Lia os mordiscou enquanto fazia carinho no cabelo da garota que a retribui com uma pequena secreção que saia pelo canto esquerdo da boca.
Introdução aos contos (II parte)
Há 17 anos

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